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Entre o brilho do expositor e a prova do conceito

  • Foto do escritor: Keine Alves
    Keine Alves
  • há 2 dias
  • 9 min de leitura

Uma leitura da Aula 8 do ABP sobre nova economia, ecossistemas e nexialismo


Há aulas que se sustentam pela força do conceito, outras, pela força de quem as conduz. A Aula 8 do ABP, no Board Academy Br com Marcelo Ribas Cañellas, me pareceu pertencer mais a esta segunda categoria e isso não é crítica, sim, um reconhecimento.


Marcelo demonstra um conhecimento tácito raro. Sua fala não vem apenas de leitura ou de repertório acumulado. Vem de trânsito real por contextos diversos, de experiência vivida, de leitura de ambiente, de sofisticação relacional e de uma capacidade pouco comum de costurar negócios, cultura, liderança, comunicação e estratégia. O próprio material da aula mostra uma trajetória internacional e multissetorial robusta, com formação ampla, atuação executiva relevante e circulação por ambientes distintos de negócios e transformações efetivas. Realmente há densidade nele. Há presença. Há um mundo pulsante nos negócios.


Por isso, seria injusto reduzir a aula a um modismo qualquer. Marcelo é muito competente e talvez justamente por isso seja ainda mais necessário fazer a distinção correta. Uma coisa é a força do expositor. Outra, bem diferente, é a força do conceito que ele escolhe mobilizar.


A aula parte de um diagnóstico que, em linhas gerais, é válido. A empresa isolada perdeu potência. A nova economia dita, sem a devida definição que o tema cobra pelo seu rigor e importância cientifica, deslocou o centro de gravidade dos negócios e isso eu também estou de acordo. Valor já não nasce apenas de estrutura, ativos tangíveis ou escala produtiva. Nasce também da capacidade de articular relações, construir ecossistemas, operar em rede, ativar confiança, reputação, comunidade, dados, experiência e propósito. Nessa direção, o argumento tem sentido e gera significado. Também faz sentido a provocação segundo a qual a pergunta decisiva já não é apenas o que a empresa faz, mas com quem ela é capaz de construir o futuro.


Há utilidade real nisso, pois num mundo em que cadeias de valor se tornaram interdependentes, em que a percepção pública interfere diretamente na força de um negócio e em que a reputação pode se tornar mais decisiva que o ativo físico, ignorar o tema dos intangíveis seria ingenuidade.


Confiança, marca, conhecimento, comunidade e narrativa estratégica não são elementos desconectados e sem a devida importância. Tornaram-se parte da própria estrutura contemporânea de geração de valor. A aula acerta quando chama atenção para isso e acerta também quando insiste que relevância passou a ser relacional e que nenhuma organização séria deveria continuar se imaginando como uma fortaleza autossuficiente.


O mesmo vale para a distinção entre networking e netweaving. Quando Marcelo desloca a ênfase do “o que ganho com você?” para “o que podemos construir juntos?”, ele toca num ponto importante que a relação precisa ser madura não uma forma de oportunismo com boa embalagem.


O valor de uma rede está menos no contato em si do que na capacidade concreta de produzir confiança, conexão e construção compartilhada. Estamos falando de sobriedade, isso é muito pertinente para o nosso momento atual, pois a própria apresentação reforça essa lógica ao tratar netweaving como generosidade, apoio, construção de pontes e autenticidade, chegando a afirmar que, se parecer cálculo, quebra o encanto.


Até aqui, portanto, há um núcleo aproveitável e que se fazer necessário, ainda que ele reforce muito mais uma intuição já conhecida por aqueles que sabem o peso de um agir ético e moral conectado a bons e valiosos costumes, do que uma descoberta conceitual propriamente nova.


O problema começa quando a aula sai desse terreno mais intuitivo e estratégico e tenta ganhar estatuto de conceito forte. É exatamente nesse ponto que entra o assunto abordado com o nome de nexialismo.


Na apresentação, o nexialismo aparece como arte de conectar mundos, como integração de saberes, como resposta à complexidade e, sobretudo, como modelo do profissional do futuro. O nexialista seria essa figura capaz de costurar disciplinas, perceber padrões invisíveis aos especialistas isolados e funcionar como ponte entre campos distintos do saber.


A imagem é poderosa. Pedagogicamente, funciona. Retoricamente, seduz. Pela fantasiam encanta. Andragogicamente nos coloca em dúvida. Porém é justamente aí que minha reserva se amplia consideravelmente para essa aula. Porque uma imagem forte não é, por isso, um conceito que se sustenta.


Esta distinção, para mim, é central.


Não tenho objeção à metáforas, mas tenho objeção ao salto apressado da metáfora para a teoria pela minha formação intelectual. O fato de uma imagem ser mobilizadora não lhe confere, automaticamente, densidade epistemológica. O fato de um expositor brilhante sustentar uma figura narrativa não transforma essa figura em categoria rigorosa de conhecimento. O respeito ao homem não pode dispensar o exame do conceito e como um bom Kantiano, nunca vou deixar de me posicionar em relação a isso e penso inclusive que aqui existe diversos pontos a serem discutidos.


No caso do nexialismo, essa exigência me parece ainda mais importante porque a própria origem do termo já nos obriga a algum cuidado. Estamos falando de um conceito que nasce numa obra de ficção científica, The Voyage of the Space Beagle, de A. E. van Vogt, e que depois é transposto para o mundo da liderança, da inovação e da nova economia como se essa transposição, por si só, resolvesse o problema de sua validade. Infelizmente, não resolve. Pode resolver no plano da imagem. Não resolve no plano da ciência e do mundo pragmático. A própria apresentação assume essa origem ficcional e, mesmo assim, eleva o nexialista à condição de “modelo do profissional do futuro” que para mim é no mínimo contraditório e perigoso.


Todavia, aqui vale uma distinção decisiva que preciso partilhar. Nem tudo o que é relevante é científico. Nem tudo o que tem força humana, cultural, moral ou espiritual precisa caber no regime da ciência. O problema não está em existirem planos diferentes de validade. O problema começa quando eles são confundidos e extremamente valorizados.


Longe de enveredar por uma linha religiosa, mas o tema Deus é um bom exemplo disso. Para muitos, Deus não é objeto da ciência empírica e, nem por isso, desaparece como questão filosófica, metafísica ou teológica. O tema permanece, mas em outro registro. O erro começa quando se quer converter uma questão de uma ordem em prova de outra.


Com o nexialismo, meu incômodo é parecido, pois ele pode ter utilidade como metáfora pedagógica. Pode funcionar como imagem de sensibilização contra a hiperespecialização cega. Pode até ser interessante como linguagem de estímulo à integração de saberes. Mas isso ainda não autoriza tratá-lo como se já fosse uma categoria forte, cientificamente sustentada, apta a substituir formulações muito mais rigorosas, como interdisciplinaridade, tradução epistemológica, integração metodológica ou pensamento sistêmico ancorado em profundidade.


Inclusive no próprio texto sobre a sua definição apresentado em aula vai nessa direção ao apontar a falta de rigor epistemológico, a simplificação da interdisciplinaridade e o caráter mais narrativo do que científico do nexialismo.


Talvez o ponto mais fecundo no meu ponto de vista, portanto, não seja rejeitar a aula, mas refinar sua tese. Em vez de aceitar de modo imediato a figura do nexialista, me parece mais sério colocar ao lado dela outra figura que proponho que é a do especialista sistêmico.

Essa comparação, a meu ver, ilumina melhor o problema.


O nexialista, tal como aparece no discurso contemporâneo, tende a ser desenhado como alguém que paira acima das disciplinas, liga pontos, costura mundos e faz sínteses improváveis.


Já o especialista sistêmico não é uma figura literária e nem um mediador quase mágico. Ele é alguém que reúne profundidade real em um campo, capacidade de leitura de sistema, inteligência para operar nas bordas de outras áreas e, acima de tudo, prudência metodológica para não confundir conexão com explicação, analogia com prova e intuição com conhecimento.


E essa diferença não é pequena e não estou escrevendo isso por um capricho.


Vale comentar que o especialista sistêmico não é o especialista encapsulado, cego ao entorno e fechado em sua própria linguagem como muitos julgam, mas também não é o generalista difuso, nem o conector romântico que transforma qualquer aproximação em aparente síntese.


Ele sabe que a integração séria entre disciplinas é custosa. Sabe que há linguagens inconciliáveis, métodos incompatíveis, paradigmas incomensuráveis e fronteiras reais entre campos. Sabe, enfim, que conectar não é um ato de vontade, e sim um trabalho de tradução, critério e método.


É por isso que, no fim das contas, eu diria que Marcelo está mais próximo dessa figura do especialista sistêmico do que da caricatura conceitual do nexialista e digo isso como elogio.

Porque o valor de Marcelo, ao menos na aula, não me parece residir no fato de ele encarnar uma teoria nova, mas no fato de demonstrar, na prática, algo muito mais difícil, que é a densidade instalada com articulação ampla. Ele não soa como alguém que sabe um pouco de tudo. Soa como alguém que acumulou experiência suficiente para ler sistemas, perceber conexões e mobilizar repertórios sem perder por completo o contato com a realidade. Isso é mais sério do que o rótulo que ele escolheu usar.


Daí a importância de separar uma coisa da outra.


O mérito de Marcelo não prova o nexialismo, sobretudo em ambientes que carecem de ciência e assertividade como é um conselho. A competência do expositor não valida automaticamente o conceito, o brilho da apresentação não pode substituir o trabalho do discernimento e do pragmatismo necessário.


A crítica de cunho filosófica que promovo ao nexialismo começa justamente onde o entusiasmo corporativo costuma parar. O conceito parece sofrer de apelo à novidade. Vende como descoberta recente algo que a história do pensamento já conheceu sob formas mais robustas. A integração entre saberes não nasceu com esse nome. A busca de síntese, a tensão entre o uno e o múltiplo, o problema da fragmentação do conhecimento e a necessidade de mediações entre campos atravessam séculos de filosofia e ciência.


O que o nexialismo faz, muitas vezes, é reembalar essa velha dificuldade numa linguagem de impacto e não tirar do conforto que devemos quando é preciso, como seria no caso do especialista sistêmico, que vai exigir preparo duro e posicionamentos desconfortáveis.


Além disso, ele simplifica a própria interdisciplinaridade. Fala-se como se integrar disciplinas fosse, sobretudo, uma atitude mental ou uma disposição subjetiva.


Não é. A verdadeira interdisciplinaridade exige conhecimentos instalados, critérios compartilháveis, método, validação e competência nas bordas de contato entre campos. Sem isso, a conexão vira colagem.


A colagem, quando soa bonita demais, pode passar por inteligência sem sê-lo de fato. Esse texto crítico é claro ao dizer que a interdisciplinaridade rigorosa é superior ao nexialismo superficial e também do discurso corporativo, sem método claro, ele beira a especulação desancorada que descredibiliza.


É por isso que me parece mais prudente deixar uma pergunta no ar, em vez de uma adesão apressada.


Quando se fala no profissional do futuro, estamos diante de uma formulação conceitualmente sustentada ou apenas de uma imagem poderosa?


Estamos lidando com uma categoria que suporta o peso do rigor ou com uma metáfora oriunda da ficção que foi elevada rápido demais ao estatuto de solução?


Essas perguntas, para mim, valem mais do que uma resposta fácil. Porque ela preserva o mérito do Marcelo sem sacrificar a sua honestidade intelectual. Reconhece o valor da aula sem capitular diante da linguagem. Aproveita o que há de útil na provocação sem transformar retórica em epistemologia.


No fim, o saldo que tiro da aula é que foi acertada ao recolocar em pauta temas decisivos para o nosso tempo, como ecossistemas, intangíveis, conexão, confiança, propósito, construção relacional de valor e a insuficiência da empresa isolada. Acerta também ao provocar líderes e conselhos a saírem do fechamento de suas visões e a enxergarem o ambiente em rede e tudo isso merece atenção.


Mas exagera quando o nexialismo é apresentado como modelo forte do profissional do futuro e quando a imagem da conexão parece querer substituir a exigência de profundidade.


A apresentação chega a afirmar que o futuro não pertence aos especialistas, mas aos nexialistas e os define como “ponte entre disciplinas” e distribui papéis quase psicológicos entre generalista, especialista e nexialista, como se a questão pudesse ser resolvida por um arranjo retórico simples.


O futuro, a meu ver, não pertence ao especialista fechado. Isso é verdade. Mas também não pertence automaticamente ao nexialista. O futuro exigirá algo mais difícil, mais raro e menos sedutor. Algo como um certo especialista sistêmico que proponho, aquele que realmente tem a capacidade de unir profundidade, método, leitura de contexto, inteligência relacional e visão de conjunto sem abandonar o rigor. Aquele que sabe que nem toda ponte é legítima, nem toda conexão é fecunda e nem toda síntese é verdadeira.


Penso que seja exatamente aí que a Aula 8 mereça ser lida e questionada não só por mim. Não como consagração de um conceito, mas como ocasião para perguntas mais edificantes, pois entre o conceito que encanta e o conceito que sustenta, onde exatamente estamos colocando o nexialismo?


Acredito inclusive que esse artigo ofereça uma pista de porque essa pergunta é necessária pois pelo que aprendermos o conselho não existe para se comover com belas imagens.


Conselho existe para discernir. Para separar linguagem de substância, narrativa de método, percepção de evidência, repertório de prova. Se a nova economia de fato exige mais articulação, mais ecossistema, mais leitura de rede e mais inteligência relacional, então isso aumenta, e não diminui, a necessidade de um conselho técnico.


Keine Alves – Líder educador, pesquisador e filósofo aplicado


 
 
 

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