O teatro da produtividade e o engano das segundas intenções
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 5 min de leitura

Enquanto lia as notícias, me deparei com um editorial no jornal O Globo que chamou minha atenção pelo título: “Produtividade é maior fraqueza da economia brasileira”.
O texto explica como essa questão se perpetua ao longo das décadas, representando uma fraqueza estrutural que afeta diretamente nosso crescimento econômico e a qualidade de vida da população.
Este é um elemento que combato constantemente em minha atividade profissional de forma direta. Inclusive, ouso afirmar que meu foco principal é ampliar exatamente a efetividade, eficiência e a eficácia das empresas. Essa busca é um dos meus maiores objetivos, e para alcançá-lo, é essencial combater as segundas intenções que, muitas vezes, causam impactos profundos e prejudiciais, alimentando o que costumo chamar de “teatros corporativos”.
Ao refletir sobre o tema, percebi que a produtividade, ou a falta dela transcende números e índices econômicos. Ela nos leva a um debate muito mais amplo sobre a maneira como encaramos nossas responsabilidades, intenções e, acima de tudo, sobre o quanto somos honestos no enfrentamento de nossos desafios.
O problema da aparência sobre a essência
Esse problema é um dos grandes desafios apontados pelo editorial sobre produtividade. Muitas vezes, o foco das ações governamentais e institucionais não está na essência do problema, mas na criação de uma narrativa que transmita progresso e isso eu chamo de teatro.
Essa superficialidade é facilmente identificável em discursos políticos que exaltam resultados pontuais enquanto ignoram questões estruturais mais profundas. Porém, esse comportamento não se limita às esferas de poder. Ele reflete padrões enraizados em nossa sociedade e, frequentemente, na maneira como cada indivíduo enfrenta seus próprios desafios.
Essa questão não é nova e encontra raízes históricas em práticas recorrentes de desviar a atenção do real problema para soluções que apenas aparentam eficiência.
Desde o período do Iluminismo, pensadores como Immanuel Kant já abordavam essa tensão entre aparência e essência.
Kant inclusive defendia que o valor moral de uma ação está na intenção genuína com que é realizada, e não em seus efeitos aparentes. Para ele, agir de forma ética exige clareza de propósito e honestidade, algo que muitas vezes é substituído por segundas intenções, seja para autopromoção, seja para mascarar falhas.
Quando isso acontece, não apenas deixamos de resolver os problemas, mas também perpetuamos ciclos de estagnação e retrocesso.
No Brasil, isso se manifesta de maneira clara na forma como governos priorizam ações que geram resultados de curto prazo ou que passam a impressão de eficiência, mesmo que não enfrentem os entraves reais.
Reformas são anunciadas com grande alarde, mas raramente conseguem atacar os problemas estruturais da educação, da infraestrutura ou da economia. Essa abordagem, ao longo do tempo, cria uma cultura de autoengano que engana não apenas os outros, mas também a nós mesmos.
A realidade é que o governo reflete a sociedade que o compõe e, portanto, essa superficialidade é também um traço de como lidamos com os nossos desafios no dia a dia.
O hábito de valorizar a aparência em detrimento da essência alimenta uma cultura de mediocridade, onde a prioridade é parecer eficiente, e não ser de fato eficaz, e enquanto seguimos ignorando o cerne das questões, adiamos soluções reais, perpetuando o problema.
O autoengano como obstáculo ao progresso
Esse comportamento de encenação é algo que todos, em maior ou menor grau, reproduzimos em nossas vidas pessoais. Quantas vezes, diante de um problema, optamos por soluções que resolvem a aparência da questão, mas que não enfrentam sua raiz?
Fazemos isso por conveniência, por medo de encarar nossas limitações ou, muitas vezes, para preservar uma imagem que construímos para os outros e para nós mesmos.
Tomemos como exemplo uma situação cotidiana: uma pessoa que está insatisfeita no trabalho.
Em vez de buscar entender as razões dessa insatisfação e agir para solucioná-la, seja desenvolvendo novas habilidades, seja buscando oportunidades em outro lugar, ela pode preferir reclamar constantemente, buscando justificar sua situação sem assumir a responsabilidade de mudá-la.
É mais fácil parecer ocupado e produtivo do que realmente ser. No nível macro, esse padrão é replicado por governos e instituições. Em vez de investir em medidas que aumentem a produtividade de forma consistente, como reformas estruturais, melhorias educacionais e incentivos à inovação, priorizam-se ações paliativas, como a criação de programas temporários ou a manipulação de índices econômicos para criar uma narrativa positiva. É como se o país, assim como muitos de nós, preferisse viver um teatro.
A ética da intenção e a busca pela verdade
Voltemos a Kant, onde sua ética não admite ações realizadas por motivos egoístas ou superficiais. Para ele, a verdadeira moralidade está em cumprir o dever pelo dever, guiado por princípios universais. No contexto da produtividade brasileira, isso significa que, se quisermos superar esse desafio, precisamos agir com clareza de intenções. Isso não vale apenas para governos, mas também para empresas, instituições e indivíduos.
Infelizmente, muitas vezes, nossas ações são moldadas por um desejo de aprovação externa ou pela busca de benefícios imediatos. Isso é visível em discursos políticos que exaltam feitos supérfluos ou em pessoas que, no ambiente de trabalho, investem mais energia em parecer ocupadas do que em contribuir verdadeiramente.
A pergunta que surge aqui é: como escapar desse ciclo? Como podemos agir com honestidade e propósito, priorizando o que realmente importa?
O desafio de ser produtivo de verdade
Para sermos produtivos de verdade, precisamos, antes de tudo, admitir nossas falhas e limitações.
Isso exige coragem e humildade. Governos precisam reconhecer os entraves reais ao crescimento, como a ineficiência do sistema tributário, a precariedade da educação e a baixa competitividade industrial. Do mesmo modo, cada indivíduo deve encarar suas próprias barreiras, seja no âmbito profissional, seja no pessoal.
A verdadeira produtividade não está em fazer mais coisas, mas em fazer as coisas certas. Isso requer foco, planejamento e, sobretudo, honestidade. Precisamos abandonar o hábito de buscar soluções que apenas camuflam os problemas. Afinal, como Kant nos deixou, o objetivo não é parecer virtuoso, mas agir com virtude.
Um espelho para nossa sociedade
Quando refletimos sobre o problema da produtividade no Brasil, percebemos que ele é, em grande medida, um espelho da nossa sociedade. Vivemos tempos em que a aparência muitas vezes vale mais do que a essência. Redes sociais, discursos políticos e até interações cotidianas estão repletos de superficialidade.
Porém, essa superficialidade tem um preço. No caso do Brasil, ele se traduz em uma economia que não cresce como poderia, em cidadãos que não alcançam seu pleno potencial e em um país que, apesar de suas imensas riquezas e talentos, permanece aquém do que poderia ser.
Se quisermos mudar isso, precisamos começar por nós mesmos. Precisamos abandonar o teatro que construímos para os outros e para nós mesmos e encarar a realidade com clareza. Isso significa admitir nossos erros, aceitar críticas e, acima de tudo, agir com propósito e determinação.
Como reflexão final
Deixo aqui uma pergunta: quanto você tem feito para realmente ser mais produtivo e alcançar o que tanto almeja?
Quanto você está realmente disposto a abandonar as aparências e construir uma novo momento?
A escolha é sua e saiba que ela fará toda a diferença, afinal a produtividade só depende de cada um de nós.
Keine Alves
Líder educador e pesquisador




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